the woods are lovely, dark and deep,
but i have promises to keep,
and miles to go before i sleep,
and miles to go before i sleep.

domovoi
Домовой

Na tradição eslava, o Domovoi é a divindade doméstica atrelada a uma determinada linhagem familiar. Acredita-se que ele a defende em diversos aspectos, sendo especialmente protetivo em relação às crianças e aos animais da casa, além de ser capaz de prever e alertar eventos futuros relacionados a ela, como mortes de parentes ou quaisquer acontecimentos que possam ameaçar o bem-estar da família.Estando intimamente ligado à estrutura da própria residência, em mudanças, é necessário convidar a criatura para a nova moradia, processo em que normalmente se realiza sacrifícios, que também devem ser feitos para convidá-la para uma casa recém-construída, onde essa deidade ainda não está presente. Construções abandonadas ou mesmo destruídas podem conservar seu Domovoi, ao qual caberá aceitar ou rejeitar os novos ocupantes.Sacrifícios também são feitos na rotina da casa, seja pela oferta dos restos de uma refeição, como uma forma de incluir o Domovoi no cotidiano da família, seja pela concessão de presentes como tecido e tabaco para garantir que ele continue satisfeito e ajudando a manter a ordem no lar. Vale ressaltar que, apesar de sua benevolência característica, trata-se de um ser facilmente ofendido.Na maioria das vezes, a raiva dessa entidade é despertada quando seus familiares são desrespeitosos, principalmente pelo uso de má linguagem, ou negligentes quanto à organização e à limpeza da casa. Nesse caso, o Domovoi adota um comportamento maldoso, passando a fazer barulho excessivo durante a noite ou, segundo algumas crenças regionais, beliscando os moradores da residência durante seu sono. Em casos extremos, ele pode ainda abandonar a família, que, sem sua influência coesiva e sua proteção contra calamidades, fica entregue à sua própria ruína.Felizmente, na maioria das vezes, os ânimos desse ente podem ser apaziguados. Quando está contente, ele expressa sua satisfação através de risadas e cantorias, podendo ainda ajudar em pequenas tarefas domésticas. Às vezes, o Domovoi faz tranças na barba ou nos cabelos de um dos familiares, o que é tido um sinal de boa sorte e de seu amor pela família.Esse ser normalmente é descrito como uma criatura humanoide pequena e peluda de olhos brilhantes, podendo assumir traços ou toda a aparência de algum familiar falecido ou do chefe da casa, bem como de algum animal de estimação da família. No entanto, na maioria das vezes, ele não é visto, mas percebido de formas mais discretas, como através de sons ou de suas contribuições na rotina da casa. Algo ainda mais raro é que ele seja visto em sua verdadeira forma, acontecimento que é compreendido como um prenúncio da morte de algum familiar, fatalidade também anunciada pelo apagamento de uma vela.


плохой знак, a bad omen
in fact, destiny sometimes does send heralds

As mãos pequenas apertaram a coberta grossa quando ruídos se fizeram audíveis naquela madrugada. Por dias repetia aquele movimento apreensivo enquanto torcia para que a camada delgada de tecido fosse proteção o suficiente contra o ser que o espreitava.Sua mãe havia lhe dito que deveriam ser ratos. O menino, no entanto, estava certo de que era algo mais espantoso do que roedores, mas a mulher, embora não pudesse ser cética, sempre acabava culpando sua imaginação fértil por essas suspeitas.Suas pálpebras pesadas estavam quase se fechando quando percebeu um leve afundo no lado oposto do colchão. Apesar de que sua mãe, vez ou outra, vinha em seu quarto e sentava ao pé da cama para checar como ele estava, havia algo distinto naquela presença. Algo inumano, sobrenatural.Tomado por sua curiosidade infantil, o menino vagarosamente descobriu a cabeça. Estava escuro, mas, ainda assim, conseguiu distinguir uma silhueta felpuda um pouco além de seus pés. Inicialmente julgou ser um gato, apesar do porte estranhamente maior. Contudo, na fração de segundos seguinte, a criatura pareceu adquirir traços humanoides.Um grito brotou em sua garganta, mas ele nunca chegou a sair, sendo extinguido de forma imediata pelo encontro de seu olhar com as íris brilhantes da entidade na sua frente. Estava assustado, embora a criatura em si não lhe parecesse ameaçadora. Havia algum afeto no modo que ela o olhava, apesar de que a sua presença ali o enchia com um sentimento melancólico que até então desconhecia.Sutilmente, as mãos peludas alcançaram seu braço. O menino sentiu o toque frio sobre sua pele antes de, espantado, afastar-se em um sobressalto. Com a repentinidade de seu ato, a aparição também pareceu se assustar, pulando da cama. Quando conseguiu reunir coragem o suficiente para procurá-la, ela há muito havia sumido de vista.Voltando a apertar as cobertas com as quais se cobria, o garoto cogitou ir atrás da mãe para relatar o acontecido, mas desistiu por saber exatamente o que ouviria: que estava tarde e que tudo não passara de um sonho. Ele, todavia, sabia que tinha sido real. Assim, permaneceu apreensivo entre seus lençóis, esperando o sono vir sem saber o que lhe aguardava.Na manhã seguinte, acordou desconfiado, procurando pela criatura que havia o visitado por todas as partes da casa pelas quais passava. No entanto, não havia qualquer sinal de sua existência, e, apesar de seu estranhamento, o dia procedeu como de costume.Com a chegada da noite, esperou pelas batidas, mas elas não vieram, deixando o garoto ainda mais inquieto do que quando as conseguia ouvir. Contudo, quando estava quase adormecendo, algo diferente se fez audível.De início, não conseguiu distinguir bem o som que ouvia, mas após alguns instantes quase sem respirar, apenas escutando atentamente, percebeu que se tratava de um choramingo. Naquela noite, assustado, o menino não dormiu.Tal fato se repetiu pelo resto da semana, fazendo com que ficasse cada vez mais apreensivo, embora não tivesse coragem de comentar com a mãe, temendo não ser levado a sério. Entretanto, à parte disso, nada inusitado acontecia. Até, é claro, o fatídico dia em que tudo mudou.Era sexta-feira. Egor estava no portão da escola, esperando sua mãe buscá-lo, quando sentiu que estava sendo observado. Um certo nervosismo começou a borbulhar dentro de si ao passo que ele olhava ao seu redor, tentando solucionar a origem daquela sensação incômoda.De repente notou, do outro lado da rua, um contorno esguio, curvado e senil. Um arrepio percorreu sua espinha, deixando-o em alerta. Pela distância, postura e vestimentas, não conseguia saber se era um homem ou uma mulher, mas pouco interessava, já que, no mesmo instante, o carro de sua mãe estacionou na sua frente, e ele correu para adentrar no automóvel.A mulher o encheu de beijos, perguntando como havia sido o seu dia enquanto o ajudava a acomodar suas coisas. Respondeu qualquer coisa a ela, ainda se sentindo um tanto agitado pela presença esquisita na rua, apesar de saber que deveria ser o avô ou a avó de alguém.Enquanto dava partida no veículo, sua mãe começou a lhe contar sobre a matrioska que ganhara de presente de alguém do seu trabalho. Mal haviam saído do lugar quando ela precisou desviar bruscamente, quase batendo em algum pedestre que subitamente apareceu na frente do carro.Quando o menino ergueu o olhar, em meio aos xingamentos de sua genitora, ele enxergou a mesma figura que lhe trouxera calafrios há poucos momentos, e, na fração de segundos antes dela ser deixada para trás, pôde ver sua face parcialmente putrefata, em que se observava apenas um olho e um sorriso macabro.

likho
Лихо

Na língua russa, likho significa azar ou mau agouro. Embora não seja de fato o nome de uma criatura, tal conceito é frequentemente personificado no folclore e nos contos de fadas, apresentando-se como um ser senil ou uma espécie de duende, tendo como principal característica um olho único.Acredita-se que essa entidade tenha grande apreço por estragar a felicidade e a prosperidade humana, buscando lugares bem afortunados onde pudesse disseminar as consequências desastrosas de sua presença. Apesar de ser capaz de provocar catástrofes em larga escala, como pestes, esse ser muitas vezes acaba se ligando a um indivíduo específico, o qual segue para todos os lugares como uma sombra e atormenta, seja atraindo má sorte, seja o influenciando a tomar decisões prejudiciais.Nesse caso, o vínculo é tão expressivo que é pouco provável que alguém consiga se dissociar da criatura, a não ser quando ela é passada para outra pessoa através de um presente.Contudo, a mitologia traz alguns outros cenários. O mais otimista e menos frequente é aquele em que o sujeito consegue enganar o likho e se livrar dele. Outro um pouco mais recorrente é aquele em que, apesar de conseguir trapacear o ente e se ver livre por um certo tempo, a vítima segue sendo perseguida, podendo cair em uma armadilha. Na maioria das vezes, esse artifício consiste em um objeto capaz de despertar a ganância da pessoa em questão, que, ao pegá-lo, ficará presa e terá a mão cortada pela criatura em seguida como punição.Todavia, o desfecho mais comum é aquele relatado em histórias para assustar crianças e em mitos ucranianos, que descrevem o likho como uma entidade capaz de devorar suas presas ou, mais comumente, agarrar seus pescoços, enforcando-as.Na maioria das narrativas, quando isso acontece, o indivíduo vitimizado, desesperado, corre até um corpo d’água, pensando em afogar o likho para se ver livre, mas acaba se afogando, ao passo que a criatura escapa para perseguir um próximo alvo.Não existe uma forma específica de se proteger desse ser. É preciso contar com sua própria sorte ou, no máximo, atentar-se para os presentes que recebe. Mantenha os olhos bem abertos.


троянский конь, trojan horse
watch out for the gift horse mouth

Estava pálido de medo ao passo que era levemente acometido por uma sensação de vertigem. Após alguns instantes tensa frente ao volante, sua mãe finalmente se voltou para si e pareceu perceber o medo estampado na sua expressão, logo buscando tranquilizá-lo:— Está tudo bem, querido. Não fique assim. Foi apenas um susto.— Ele só tinha um olho — murmurou com a voz trêmula — e estava se despedaçando.A mulher, que provavelmente não tinha notado as feições da criatura, franziu o cenho. O menino não soube distinguir se ela havia simplesmente estranhado o que dissera, desacreditando nas suas palavras, ou se havia ficado pensativa. De qualquer forma, naquela vez, ela não dissera nada além de palavras de conforto. Queria acreditar nelas, mas a sensação de que algo ruim os aguardava falava mais alto. E como ele gostaria de ter estado errado sobre isso.● ● ●Durante todo o final de semana, o sentimento era de estar sendo observado. Às vezes, sua visão periférica parecia captar algo, mas sempre se via sozinho quando olhava em volta. Chegou a desconfiar da confiabilidade de seus sentidos, mas a inquietação persistente que se revolvia dentro de si não permitia que ele menosprezasse aqueles sinais. Algo de ruim estava por vir.Como resultado desse pressentimento, o garoto, que sempre fora um tanto esquisito, parecia ter atingido o ápice de sua bizarrice. Mas sua mãe não percebia, pois estava igualmente estranha e sobretudo preocupada com as coisas que repentinamente começavam a sair dos eixos em sua vida: sobrecarga de demandas do trabalho, desavenças com os vizinhos, problemas no encanamento e no aquecimento da casa, desgaste súbito dos pneus do carro, entre outros.Ela não entendia porque tudo havia começado a desandar simultaneamente. Boa coisa era que havia ganhado uma matrioska recentemente, pensou. Para os russos, como ela, esse brinquedo era visto como um sinal de grande afeto, bem como um desejo de prosperidade. Esperando que tudo melhorasse logo, a mulher colocou a boneca em sua cabeceira, sem saber que ela lhe fora dada com outra intenção.● ● ●Um grito o arrancou de seu sono. Sentou-se na cama, pálido e espantado, agarrando as cobertas enquanto olhava em volta e percebia que, a princípio, estava sozinho e seguro. Começava a se perguntar se não havia sonhado com o som quando ele se fez audível novamente, rasgando o silêncio noturno.Paralisado pelo medo, inicialmente não fez nada além de se encolher em sua cama. Contudo, um pedido de socorro logo chegou aos seus ouvidos, violentamente o arrancando de sua imobilidade. Era a voz de sua mãe.Ele tinha noção de que seria de pouca ajuda frente a uma ameaça. Era apenas uma criança. Mesmo assim, correu para fora do quarto, buscando pela mulher. Logo percebeu que os barulhos vinham do andar inferior, para onde correu, quase tropeçando nos próprios pés.Chegando ao final da escada, o ar pareceu escapar de seus pulmões no instante que viu a mesma criatura que o observara na frente da escola dias antes agarrada ao pescoço de sua mãe, que tentava se desvencilhar dela a todo custo.Desesperado, soltou um grito estridente, e, a partir dele, alguns vultos surgiram na sala, causando um pandemônio, com objetos voando e vidraças se estilhaçando. Embora não entendesse o que estava acontecendo, o menino sabia que aquilo não fazia parte da ameaça. Em verdade, fora o que possibilitara que sua mãe se libertasse, e ele não hesitou em correr até ela.Olhando para si com um semblante aterrorizado, ela tomou sua mão, puxando-o para fora da casa mesmo que ainda tentasse recuperar seu fôlego. Os dois correram, entrando na floresta que circundava a residência, vez ou outra conferindo se estavam sendo seguidos.Sem qualquer sinal do monstro e já com as pernas protestando, pararam em uma clareira, perto de um lago. Sua mãe passou as mãos pelo próprio rosto, limpando lágrimas, e então se curvou para abraçar o filho, que balbuciava coisas desconexas ao passo que também chorava, nervoso.No entanto, aquele momento não durou muito. Embora não houvessem visto a criatura, ela os espreitava, e não tardou em pular novamente no pescoço da mulher, arrancando-a bruscamente dos braços do garoto.O primeiro impulso dela foi implorar para que o filho corresse. É evidente que ele hesitou em obedecê-la, não querendo, apesar do medo e da impotência, deixar a mãe para trás.Em um lapso de coragem, procurou por algo que pudesse usar para acertar a entidade. Sem quaisquer outros recursos, agarrou um galho robusto que encontrou a pouco metros de si, mas suas investidas contra o monstro não serviram para muita coisa além de irritá-lo, fazendo com que ele se voltasse brevemente para si para acertá-lo, lançando-o violentamente contra o tronco de uma árvore.Mesmo que estivesse concentrada em tentar se livrar do ser que a atacava, sua mãe notou o que acontecera consigo. Temendo que o menino acabasse também se tornando vítima da criatura, ela soube que precisava fazer algo. Estava ciente que já não tinha condições para vencer aquela luta, mas não permitiria que nada acontecesse ao filho.Assim, reuniu todas as forças que lhe restavam para correr em direção ao lago, entrando na água gélida ao passo que se debatia, tentando afogar o ente maligno. Era ele, contudo, que a puxava para baixo, fazendo com que progressivamente engolisse mais líquido.O garoto viu a cena aterrorizado. Apesar da dor, ergueu-se, querendo ir até lá para ajudar, mas, antes que o fizesse, ouviu as súplicas de sua mãe, que cortavam o ar todas as vezes que ela conseguia, com dificuldade, chegar à superfície, implorando para que fugisse. Naquele momento, ele soube como aquilo acabaria e, sem outra escolha, o menino desapareceu mata adentro.

leshy
леший

Na mitologia eslava, o Leshy é um espírito florestal que exerce tutela sobre as florestas e os animais selvagens. Com diferentes grafias a depender da região, seu nome tem origem no eslavo comum ou protoeslavo, significando, ao pé da letra, “ele da floresta”, embora outros títulos sejam atribuído a essa deidade, como o Honorável da Floresta, o Justo da Floresta, o Mestre da Floresta, o Espírito da Floresta ou simplesmente Ele.Considera-se que esse ser tenha a capacidade de assumir qualquer forma, vegetal ou animal. Ele pode ainda mudar de tamanho, tornando-se tão pequeno quanto uma gramínea ou tão grande quanto uma árvore.Em sua forma humanoide, ele normalmente se apresenta como um homem pálido e esguio, com cabelo e barba feitos de grama e vinhas, olhos verdes brilhantes e, por vezes, cauda, cascos e chifres. Além disso, é comum que seja visto na companhia de lobos cinzentos, com os quais tem uma ligação estreita, ou ursos. Outras narrativas relatam uma aparência perfeitamente comum, facilmente passável por um camponês qualquer, com exceção das íris esmeraldas resplandecentes e os sapatos calçados ao contrário. No entanto, em alguns contos, diz-se que é mais frequente que ele apareça para os visitantes como um grande Amanita muscaria falante, embora ele raramente fale como um humano, preferindo fazer uso de barulhos florestais, ecoando o farfalhar da vegetação e o som dos animais, ou de cantigas em línguas inumanas.Por ser o protetor das florestas, esse espírito tem os lenhadores como alvo e age tanto escondendo seus machados quanto provocando acidentes com eles. Contudo, esse é apenas um lado de sua personalidade multifacetada e, por vezes, traiçoeira. Na verdade, o Leshy tem muitos truques na manga, sendo um dos mais comumente relatados a sua capacidade de imitar as vozes de pessoas próximas aos invasores com a intenção de atraí-los floresta adentro, fazendo com que se percam na mata fechada.Todavia, nem todos os encontros com essa criatura são desagradáveis, embora eles gostem de causar uma certa confusão. As lendas contam que aquele que a encontrar e a fizer rir estará seguro. Além disso, caso tenha a oportunidade de auxiliar uma dessas criaturas, é possível que ela lhe ensine os segredos da magia. Também não são raros relatos de pactos entre agricultores, pastores e essa entidade para que ela protegesse suas colheitas e seus rebanhos. Nesse caso, diz-se que os camponeses teriam que lhe entregar suas cruzes, jurando nunca mais usá-las, e partilhar da comunhão, o que supostamente também lhes garantiria poderes especiais. Ademais, aqueles que conquistarem a estima de um Leshy poderão ainda receber um espírito familiar, que os protegerá e os auxiliará no seu progresso com a magia.Apesar da maioria dos encontros com esse espírito acontecerem em seu domínio, admite-se que, às vezes, ele possa deixar a floresta. É dito que ele o faz principalmente em busca de pessoas, sendo apontado como um dos seres responsáveis pelo fenômeno de raptar crianças e substituí-las por changelings. Acredita-se que ele também sequestre mulheres, especialmente as descompromissadas ou aquelas presas em relacionamentos infelizes.Por conta disso e de sua tendência de desviar os viajantes, alguns acreditam que o Leshy seja uma entidade maligna. Contudo, conforme descrito, sua personalidade possui muitas nuances. A interpretação mais adequada é a que aponta uma disposição mais neutra em relação aos humanos, a depender das intenções e dos comportamentos individuais para com a floresta, pela qual tem bastante zelo. Também é correto compará-los às fadas, sendo uma criatura igualmente temperamental.Certas lendas sugerem que, caso aqueles sequestrados por essa divindade se abstenham de comer sua comida, eles estarão livres para ir. Também é possível enganá-la vestindo suas roupas ao contrário. Em geral, todos os que retornam apresentam uma aparência selvagem e perturbada, além de perderem a capacidade de falar, ainda que temporariamente. Os menos afortunados perdem a cabeça, tornando-se insanos, ao passo que alguns sortudos exibem novos conhecimentos e poderes mágicos, comumente se tornando xamãs e praticantes excepcionalmente habilidosos de magia.


манок, decoy
not all creatures hunt with teeth

Sentia o gosto salgado das lágrimas que alcançavam os lábios entreabertos pela respiração ofegante enquanto corria por entre as árvores colossais da floresta. Já não sabia onde estava, tampouco por quanto tempo estava correndo, embora suas pernas protestassem como se cada passo fosse o último que conseguiriam dar. Apesar disso, não parava, fosse pelo medo, fosse pela certeza de que, caso ainda não houvesse uma distância significativa entre si e o lago, acabaria retornando para onde havia deixado sua mãe.Pensar nisso lhe apertava o peito, e, por alguns instantes, seu corpo parecia hesitar em continuar fugindo, então ele se forçava a afastar aquilo de seus pensamentos, mesmo que apenas momentaneamente, e olhar para frente.Não enxergava muito além do que estava imediatamente diante de si. A escuridão havia tomado a floresta por completo, e as árvores pareciam ainda maiores, com seus troncos se erguendo ao redor dele como muralhas, formando um labirinto que percorria praticamente às cegas. E, enquanto o fazia, galhos arranhavam seus braços e o rosto, folhas secas se prendiam às suas roupas e o chão irregular tornava cada passo uma aposta. Mas não se permitia parar.Ao menos até seu pé encontrar alguma coisa no escuro.Antes que pudesse processar o ocorrido, seu corpo foi lançado para a frente, e o garoto caiu entre as raízes expostas de uma árvore antiga. Tentou proteger o rosto com os braços no último instante, mas não conseguiu evitar o impacto por completo, deixando escapar um som abafado de dor.Por alguns segundos, permaneceu imóvel, ouvindo a própria respiração descompassada, que logo passou a ser entrecortada por pequenos soluços. Tentou engoli-los, mas não conseguiu, então só lhe restou ceder às lágrimas enquanto sentia o próprio coração bater tão depressa que parecia ter se deslocado para a garganta.Pensou novamente na mãe, e seu choro se tornou mais forte.Não era sua culpa. Sabia disso. Ou deveria saber.Ainda assim, alguma coisa dentro dele insistia em dizer o contrário. Talvez pudesse ter feito alguma coisa. Talvez pudesse tê-la alertado melhor. Talvez pudesse ter acordado antes dela. Talvez pudesse ter ficado ao seu lado e tentado ajudá-la a lutar contra aquela coisa. Talvez pudesse ter partido em seu lugar. Interrompeu o pensamento. Talvez, se houvesse feito apenas uma dessas coisas, ela ainda estivesse viva.Interrompeu o pensamento. Não adiantava. Poderia passar a noite inteira imaginando outras possibilidades, mas nenhuma mudaria o que já havia acontecido. Era tarde demais.Sentou-se devagar, olhando em volta enquanto limpava a terra que havia aderido às palmas de suas mãos. Percebeu, então, que não fazia a menor ideia de onde estava. Nada lhe era familiar e, após a queda, até mesmo o caminho por onde havia vindo parecia ter desaparecido entre os troncos e as sombras. Havia corrido sem olhar para trás, escolhendo cada direção apenas porque parecia levá-lo para mais longe do lago. Naquele momento, porém, todas as direções pareciam iguais.O que faria? Para onde iria?Pensou, brevemente, que talvez bastasse escolher um caminho e segui-lo até encontrar alguma coisa. Qualquer coisa. Haveria de chegar em algum lugar, afinal. No entanto, à medida que aquele pensamento se prolongava, um questionamento doloroso começava a tomar forma: ainda que encontrasse o caminho de volta, para onde retornaria de verdade?Hesitou frente à própria dúvida, percebendo-se diante de uma resposta que não queria aceitar. Sua casa ainda existia. Poderia, para todos os efeitos, encontrar o caminho de volta, abrir a porta e adentrá-la. E, ao fazê-lo, acharia as mesmas paredes, os mesmos cômodos, os mesmos móveis, os mesmos objetos. Mas sua mãe não estaria lá.Baixou os olhos, sentindo um mal estar quase vertiginoso. À medida que aquela constatação se sedimentava, tudo ao seu redor parecia se tornar ainda mais vasto e estarrecedor. E compreendia, por fim, que não importava qual direção escolhesse, nem quanto tempo levasse para encontrar a saída daquela floresta: o caminho de volta simplesmente não o levaria de volta ao que conhecia.Não havia ninguém esperando por ele. Não tinha nenhum familiar de quem se lembrasse, nenhum outro lugar onde pudesse aparecer à porta e ser reconhecido, nenhum adulto a quem pudesse recorrer.Apavorado com essa percepção, abraçou os próprios joelhos, enterrando o rosto entre as pernas para abafar o choro que se tornava copioso. No entanto, assim que o fez, veio a vaga impressão de que havia ouvido alguma coisa.A princípio, não soube dizer o que era. Prestou atenção, mas, o que quer que fosse, não passava de um som distante, indistinto. Ressabiado, ele levantou um pouco a cabeça e se esforçou para segurar os soluços e prender a respiração para que pudesse escutar melhor, temendo, por uma fração de segundos, que a criatura ainda estivesse viva, procurando por si.Esperou, atentando-se a qualquer mísero ruído entre as árvores. Mas não percebeu nada.Talvez tivesse imaginado.Então ouviu novamente. Uma voz. Baixa e distante, mas indubitavelmente uma voz.Seu coração voltou a disparar, e o menino ergueu um pouco mais a cabeça, tentando distinguir as palavras, mas o som chegava deformado demais pela distância e pela interferência do farfalhar das folhas. Ainda assim, alguma coisa fez com que permanecesse atento.Em verdade, talvez bastasse o fato de ser uma voz. Vulnerável como estava, queria, quase desesperadamente, qualquer sinal de que não estava sozinho. De que poderia ser salvo. De que alguém apareceria e o levaria para longe de todos os eventos daquela noite. Assim, permanecia estático, completamente concentrado, tentando captar qualquer coisa que o ajudasse a desvendar o que ouvia.A voz tornou a surgir. Dessa vez, parecia um pouco mais próxima. Ainda se misturava aos demais sons da floresta, mas era distinguível o suficiente para que identificasse um tom ligeiramente agudo. Escutou com mais atenção, e concluiu que deveria ser uma voz feminina.Não conseguiu inferir muito além disso nos segundos seguintes. Afinal, não era mais do que um som distante e irregular que surgia entre as árvores e logo desaparecia outra vez. Às vezes, a voz parecia dizer alguma coisa. Uma frase completa. Outras, soava apenas como um chamado breve, em uma ou duas sílabas que se perdiam antes de serem compreendidas.Decidiu que precisava tentar se aproximar um pouco para saber do que se tratava. Assim, levantou devagar, sentindo uma dor pulsátil no tornozelo direito ao sustentar o peso do próprio corpo sobre ele momentaneamente. Ainda assim, insistiu, e deu alguns passos cautelosos enquanto se forçava a suprimir os próprios protestos, a fim de que eles não se sobressaissem à voz que tentava encontrar.A ideia logo pareceu surtir efeito, uma vez que, por mais que permanecesse distante, o som parecia ter adquirido mais forma. Ainda não entendia exatamente o que era dito, mas conseguia, pouco a pouco, identificar uma cadência entre as sentenças, uma inflexão estranhamente específica, e um timbre particular que, embora ainda não fosse totalmente reconhecível, parecia alcançar algo diferente dentro de si. Não sabia exatamente porquê.No entanto, bastou que a voz interrompesse as próprias frases e retornasse ao que se assemelhava a um chamado para que conseguisse decifrar o que era entoado e tudo se encaixasse.Por um instante, todo o seu corpo pareceu esquecer o cansaço. Porque não era qualquer palavra, mas seu nome. E não apenas o seu nome, mas a maneira exata como ele era pronunciado quando sua mãe o procurava pela casa.Chamava-o assim quando ele não estava onde esperava encontrá-lo. Quando queria que ele fosse até a cozinha. Quando estava ocupada com alguma tarefa e precisava de sua ajuda. Às vezes, quando descobria alguma travessura que repreenderia com a mesma doçura de sempre. Ele se pôs a correr antes mesmo que desse conta.— Mãe?O primeiro chamado saiu débil, inseguro, quase balbuciado. Mas, à medida que a mãe o chamava de volta, soando cada vez mais desperta, como se, assim como ele, estivesse surpresa em ouvi-lo e desesperada para encontrá-lo, sua própria voz se tornava mais alta e urgente, carregada de uma esperança que ele não esperava voltar a sentir após o que havia vivenciado no lago.O tornozelo ainda latejava a cada passo no terreno desnivelado, mas a dor não era o suficiente para detê-lo. Seguia avançando entre os troncos sem se importar com os galhos que lhe atingiam o rosto ou com as raízes que quase o faziam tropeçar outra vez. Apenas seguia o som, avançando desenfreadamente na direção de onde acreditava que a voz vinha, incapaz de pensar em qualquer outra coisa senão encontrá-la.De repente, percebeu-se às margens de uma clareira. Ali, sem a interferência das árvores, a luz do luar conseguia alcançar o chão e dissipava um pouco da escuridão que parecia engolir o restante da floresta. Diminuiu o passo, ofegante, e olhou em volta em um misto de ansiedade, expectativa e aflição, afinal, a voz parecia vir daquele local.Não demorou a perceber uma silhueta entre as árvores que se erguiam do outro lado da clareira, um pouco além de onde o brilho perolado da lua tocava. E não precisou mais do que isso para se ver livre daquele pesar dilacerante que carregava consigo desde o lago. Assim, antes mesmo de processar o que via, tornou a correr ao encontro da mãe, enquanto gritava:— Mãe! Estou aqui, mãe!— Egor? — a voz chamava de volta, em um tom de surpresa, e ele confirmava freneticamente enquanto se aproximava cada vez mais. A mulher, no entanto, não se movia.Aquela pequena incongruência passou por sua mente como um lampejo, depressa demais para competir com a esperança que ainda o impelia para a frente. E, antes que pudesse se deter sobre ela, o estranhamento já havia sido sufocado pela urgência de finalmente alcançá-la, e ele continuava avançando.— Sou eu, mãe!A distância entre eles diminuía depressa, e a figura começava, enfim, a adquirir contornos mais nítidos. Mas ainda não se mexia. Dessa vez, Egor não conseguiu ignorar esse fato. Havia algo de errado naquela imobilidade, algo que o alívio e a expectativa já não conseguiam mais encobrir. Seu passo vacilou, e ele começou a diminuir a velocidade, mantendo os olhos fixos na sombra à sua frente.Foi então que a luz da lua alcançou um pouco mais de seu rosto, e ele parou repentinamente, quase tropeçando. Por um instante, sua mente recusou o que seus olhos mostravam. Não era sua mãe.A criatura diante dele ainda tinha uma forma vagamente humana, mas havia alguma coisa errada em suas proporções: era alta demais, magra demais, com braços que pareciam longos além do necessário e mãos grandes que pendiam quase até os joelhos. Tinha cabelos desgrenhados que caíam sobre os ombros em mechas espessas, entrelaçados a folhas e pequenos galhos, e uma pele demasiadamente pálida, quase acinzentada, sobre a qual crescia musgo em determinadas regiões, como se a ele e a floresta fossem entidades indistintas.Quanto mais observava, menos conseguia reconhecer naquele ser qualquer coisa que pertencesse verdadeiramente ao mundo dos homens. Então seus olhos encontraram os dele, e o garoto sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não havia nenhuma surpresa naquele olhar, mas uma atenção paciente que beirava a satisfação e deixava claro que cada passo que havia dado até aquele lugar havia sido milimetricamente previsto e calculado.Sentiu-se nauseado. Queria correr, mas estava tão perturbado que mal conseguia comandar o próprio corpo, e seus pés pareciam presos ao chão, como raízes. Assim, por alguns instantes, os dois permaneceram se encarando, imóveis. Então, subitamente, a criatura sorriu. Não era um sorriso largo ou particularmente ameaçador, mas era inquietante o suficiente para fazer com que seu estômago revirasse. O espírito inclinou ligeiramente a cabeça.— Qual é o problema, querido?A voz o atingiu antes mesmo que as palavras fizessem sentido, e seu corpo inteiro retesou. Não estivera enganado: era mesmo a voz de sua mãe. Não apenas semelhante, ou uma aproximação que pudesse ser confundida à distância, mas a exata mesma voz. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ainda assim permaneceram presos àquele rosto estranho, buscando algo que desmentisse o que havia acabado de ouvir. Queria acreditar que havia algum engano, que sua mente estava confundindo o que via e ouvia por estar cansada, assustada demais, desesperada demais. Mas não encontrou.A criatura deu um passo em sua direção e, tomado pelo pânico, o menino recuou imediatamente. Mexeu-se tão depressa que quase perdeu o equilíbrio sobre o terreno irregular, mas reagiu rápido o suficiente para evitar uma nova queda, embora seu tornozelo tenha doído tanto que não conseguiu disfarçar as fácies de desconforto.O sorriso do espírito apenas se alargou diante de sua expressão, como se o machucado o tornasse ainda mais interessante aos seus olhos. Havia descoberto, afinal, uma fraqueza não prevista, o que significava que sua presa estava mais vulnerável do que havia inicialmente antecipado. Egor imediatamente sentiu o próprio medo se transformar em alguma coisa ainda pior.— Você não estava me procurando? — a entidade perguntou, ainda com a voz de sua mãe, em um tom suave que contrastava grosseiramente com a situação hostil em que se encontravam.O garoto não respondeu. Não era capaz de fazê-lo. Parecia que sua garganta havia se fechado, a ponto de que mal conseguia respirar. A criatura deu mais um passo.— Você veio quando ouviu minha voz — continuou.Egor balançou a cabeça freneticamente.— Não — a palavra saiu entrecortada por um soluço.— Não? — a entidade voltou a questionar com uma delicadeza quase genuína, embora isso não o tranquilizasse.Pelo contrário.Havia algo naquela sutileza que o perturbava ainda mais. Talvez fosse o eco da memória de sua mãe, que reverbera em cada palavra dita com aquela voz usurpada. Seus olhos se arderam, e ele balbuciou:— Você não é ela.A entidade continuou sorrindo e, ao falar novamente, não usava mais a voz de sua mãe. Dessa vez, suas palavras vinham em um timbre mais grave, áspero, quase gutural, como se tivessem sido arrancadas das profundezas da própria floresta. Não era menos assustador, mas ao menos não carregava nenhuma lembrança e não o chamava de volta para casa. Conseguia, enfim, ver a criatura pelo o que ela era, e não pela sobreposição impossível de sua silhueta e das memórias de sua mãe.— Não. Mas você veio mesmo assim.A mudança, por menor que fosse, bastou para quebrar o estado de imobilidade no qual se encontrava até então. Sem a voz da mãe para mantê-lo preso em meio ao horror do reconhecimento e da estranheza, cada um de seus instintos pareceu despertar de repente, e seu medo deixou de ser uma força paralisante para se transformar em urgência. Precisava fugir.Recuou mais um passo, quase tropeçando novamente. E então outro, dessa vez com mais segurança. A criatura permaneceu onde estava, observando-o com a mesma tranquilidade de outrora. Logo começou a considerar que talvez fosse exatamente isso que ela queria. Que corresse. Que tentasse fugir. Que descobrisse, sozinho, que era inútil.Ainda assim, precisava tentar.Virou-se e se pôs a correr novamente. Ou, ao menos, tentou. Seu tornozelo machucado o impedia de manter o mesmo ritmo de antes, reduzindo sua marcha a uma claudicação irregular e cada vez mais penosa, interrompida a cada poucos passos pela dor que atravessava sua perna. Mesmo assim, insistia. Mancava, tropeçava e se apoiava nos troncos quando precisava recuperar o equilíbrio, mas continuava avançando.Por alguns instantes, acreditou que estava conseguindo. Já não via mais a clareira quando olhava para trás de relance, tampouco ouvia qualquer som que indicasse que estava sendo seguido por aquela coisa, e isso era o suficiente para lhe dar um pouco de esperança.Mas não demorou para que a floresta começasse a mudar.

De início, não percebeu. As primeiras mudanças foram sutis, facilmente atribuíveis à escuridão, à falta de atenção e ao cansaço. Algumas passagens entre as árvores se mostravam mais estreitas do que pareciam à distância, exigindo que diminuísse o passo para se espremer entre elas, e certos galhos pendiam mais baixos do que aparentavam antes de se aproximar, obrigando-o a se abaixar no último instante para que não colidisse contra eles.Naturalmente, não deu muita importância, afinal, a floresta era desconhecida, e ele estava exausto demais para confiar nos próprios olhos. Quanto mais avançava, porém, mais difícil se tornava manter uma direção: os espaços entre as árvores começavam, pouco a pouco, a desaparecer, e troncos pareciam surgir onde antes havia apenas escuridão, obrigando-o a mudar de caminho repetidamente. Galhos se projetavam de repente à altura de seu rosto e de seu tronco, atingindo seus braços e puxando suas roupas, e alguns deles pareciam até mesmo se curvar em sua direção quando passava, como se tentassem agarrá-lo.A sensação de que havia alguma coisa errada começou a se insinuar em seus pensamentos, mas não a entreteve por muito tempo. Não podia se dar ao luxo de se distrair e diminuir ainda mais seu passo. No entanto, tentou, ao menos, ser mais cauteloso, mantendo os olhos atentos ao chão e às árvores à sua frente, procurando antecipar os obstáculos antes que surgissem.Seu esforço, contudo, mostrou-se inútil em poucos instantes. Ao tentar desviar de uma raiz que surgiu em seu caminho, ele a viu, com seus próprios olhos, movendo-se para se enroscar em seu tornozelo, como se estivesse na espreita por aquele momento.Ele perdeu o equilíbrio imediatamente. Ainda que o tornozelo estivesse preso, a velocidade que havia acumulado o lançou adiante, e não houve tempo hábil para impedir a queda, somente para proteger o rosto antes do impacto violento, sacrificando, para isso, tanto suas mãos quanto seus antebraços.Mas foi o tornozelo que sofreu a pior parte. Imobilizado pela raiz, o pé permaneceu para trás enquanto o restante da perna era arrastado pelo movimento da queda. A dor veio imediatamente, atordoante, e quando finalmente conseguiu olhar para a articulação, desejou não tê-lo feito.Seu pé estava inclinado para o lado, e o tornozelo parecia ter sido torcido para além de sua posição natural. O ângulo em que se encontrava era errado o suficiente para fazê-lo sentir um novo impulso de náusea. Respirou fundo, tentando conter tanto a ânsia de vômito quanto as lágrimas, mas a tentativa terminou em um soluço quebrado que rapidamente evoluiu para o choro.Então, subitamente, deu-se de conta que a raiz não estava mais em volta de seu tornozelo, mas sobre a terra novamente, imóvel, como qualquer outra raiz. Como se nunca houvesse se movido. Como se nada tivesse acontecido. Mas, dessa vez, ele tinha certeza do que havia visto. Um calafrio percorreu seu corpo.Não podia ficar ali. Precisava continuar. Arrastou-se alguns centímetros sobre a terra, incerto se sequer conseguiria se levantar. Mas ainda precisava tentar. Apoiou uma das mãos em um tronco próximo e empurrou o corpo para cima. Assim que colocou algum peso sobre a perna machucada, sentiu tanta dor que lhe faltou fôlego.Segurou-se com mais força na árvore e esperou, respirando e reunindo forças para tentar novamente. Dessa vez, manteve a perna ruim suspensa. Logicamente, não conseguia caminhar, então começou a saltar, o que exigia mais de si fisicamente, e também o tornava mais lento. Mas aquele não era o único empecilho.A floresta continuava mudando, e agora ele tinha plena consciência disso. As árvores pareciam se aproximar a cada instante, estreitando o espaço ao seu redor, enquanto raízes grossas surgiam sobre o chão de todas as direções, formando obstáculos que o obrigavam a fazer movimentos além do que seu estado atual permitia. De repente, um tronco caiu diante dele com um estrondo, bloqueando o espaço por onde pretendia passar. Ele recuou, sobressaltado, com o coração disparando ao perceber que talvez não houvesse mais uma direção segura pela qual pudesse seguir.Mas o que poderia fazer? Permanecer parado não era uma opção.Seguiu. Já não procurava realmente um caminho, somente um espaço onde pudesse repousar o pé entre tantas raízes que surgiam e serpenteavam como cobras diante de si. A floresta parecia estar ficando gradualmente menor ao seu redor, e seu medo voltou a crescer, agora acompanhado por uma sensação de sufocamento. As árvores se erguiam tão próximas que ele mal conseguia enxergar além dos troncos, enquanto os galhos se projetavam e se cruzavam ao seu redor, limitando cada vez mais o espaço por onde conseguia passar.Subitamente, ouviu um estalo acima de sua cabeça. Ergueu os olhos, sobressaltado, e percebeu que um galho robusto havia se desprendido da copa de uma das árvores. Tentou sair do caminho, mas não foi rápido o suficiente. A madeira atingiu a lateral de sua cabeça e seu ombro direito com violência, derrubando-o no mesmo instante.Por alguns segundos, não conseguiu ouvir nada além de um zumbido agudo.Sentia dor em toda parte. Latejava na cabeça, pesava no ombro e parecia atravessar seu tronco e descer pelas pernas, mas era intensa demais para que conseguisse distingui-la em pontos precisos. Tudo se confundia em uma única sensação pulsante e esmagadora que dificultava até mesmo a simples tarefa de pensar e respirar.Ainda assim, havia uma coisa que conseguia perceber com clareza: o sangue. Escorria, viscoso e quente, por sua testa, passando pela sobrancelha e descendo pela lateral do rosto, e também se acumulava na concha da orelha direita, antes de transbordar e escorrer pelo pescoço.Dessa vez, não tentou mais levantar. Sua cabeça girava, e estava simplesmente exausto e desesperançoso. Ao invés disso, permaneceu deitado entre as folhas, tentando manter os olhos abertos enquanto o mundo parecia perder nitidez ao seu redor. Pouco a pouco, sua visão se tornou estranhamente distante, como se a floresta tivesse recuado alguns metros dele. Piscou. No segundo seguinte, as árvores haviam se aproximado novamente. Seus troncos pareciam cercá-lo por todos os lados, inclinando-se sobre seu corpo, e seus galhos se entrelaçavam acima de sua cabeça, selando os últimos espaços por onde ainda poderia enxergar o céu e as estrelas.Ele suspirou, deixando o pouco de tensão que ainda sustentava seu corpo se desfazer gradualmente, e enfim se permitiu fechar os olhos. Não adiantava resistir. Não tinha mais forças. Talvez pudesse descansar apenas por alguns minutos.Talvez, quando abrisse os olhos novamente, finalmente encontrasse uma saída. Ou talvez não os abrisse. A ideia já não parecia tão assustadora quanto deveria.Então, de repente, a poucos minutos de perder a consciência, ouviu o som de passos. Lentos, quase cuidadosos, avançando sobre as folhas próximas a ele. Não abriu os olhos. Não precisava. Sabia quem era. O ruído cessou ao seu lado e, por alguns segundos, houve apenas silêncio. Em seguida, veio a voz. Aguda, doce, maternal. Preocupada.— Está tudo bem — murmurou a voz — Não precisa ter medo, Gosha.Aquelas palavras, sobretudo o apelido, o afetaram de uma maneira que não esperava. Era exatamente assim que sua mãe costumava falar quando ele acordava assustado durante a noite ou se machucava brincando. Por um momento, a lembrança foi tão nítida que quase pôde sentir o calor das mãos dela outra vez.Seu corpo se tensionou. Não queria ouvir aquilo. Ou talvez quisesse mais do que qualquer outra coisa. Sabia que era mentira. Sabia que não era ela. Mas não podia evitar de se agarrar àquelas palavras, desesperado para acreditar que fossem verdadeiras. Já não tinha forças para questionar a mentira, de qualquer maneira. Só restava aceitar.— Você correu muito, não foi? Está tudo bem. Você pode descansar agora.A voz seguiu falando, baixa e paciente. O menino tentou respirar fundo, mas o ar lhe escapou em um soluço. Depois outro. Então as lágrimas começaram a cair sem que ele tentasse contê-las, escorrendo pelos cantos dos olhos e pelas têmporas até se misturarem ao sangue que ainda lhe aquecia a pele.Os minutos foram se passando, e a criatura continuava dizendo coisas que ele não conseguia mais acompanhar direito, mas que soavam familiares o suficiente para que pudesse fingir que estava em outro lugar. Assim, a tensão que mantinha os músculos contraídos foi cedendo devagar, ao passo que suas pálpebras se tornavam mais pesadas.Ainda ouviu sua mãe chamando seu nome uma última vez. Depois, não ouviu mais nada. Só descansou.

Линька, the molt

Havia conseguido se afastar.Não muito. Nunca muito.Ainda assim, naquele pequeno intervalo de tempo, a floresta parecia outra.Na presença da criatura, tinha a impressão de que a vegetação se fechava ao seu redor. Os caminhos se tornavam difíceis de reconhecer, os troncos pareciam próximos demais, e as sombras adquiriam formas que antes não estavam presentes. Às vezes, jurava que as árvores mudavam de lugar quando não estava olhando. Talvez mudassem. Não importava de fato.Sozinho, era diferente. Os sons recuperavam suas distâncias e voltavam a pertencer às coisas que os produziam. O vento nas copas era apenas o vento, e um galho que se partia era apenas um galho cedendo sob o peso de algum animal. Até mesmo as plantas pareciam distintas. E podia reparar na luz atravessando as folhas, no musgo crescendo sobre as raízes expostas, nas pequenas flores que surgiam entre as pedras, e em tudo mais que chamasse sua atenção. Podia, enfim, escolher por onde ir sem sentir que algo conduzia seus passos.Gostava de procurar e descobrir coisas. Especialmente as que não sabia explicar. Círculos de cogumelos. Pedras dispostas de forma não natural. Pegadas que cessavam repentinamente. Galhos e troncos envoltos por fios vermelhos. Símbolos. Ossos. Oferendas.Naturalmente, não descobria ou aprendia tudo sozinho. Vez ou outra, era a criatura que o ensinava, embora raramente lhe desse instruções claras ou respostas completas. Ainda assim, aprendia.Aprendera, por exemplo, que a floresta tomava coisas, mas oferecia outras. Que algumas coisas eram deixadas para trás de propósito. Que certos nós não deveriam ser desfeitos. Que nem toda oferenda era destinada aos mesmos olhos. Que havia maneiras de pedir, maneiras de oferecer e maneiras de atravessar certos limites sem ser percebido. Que havia caminhos que poderiam ser atravessados durante o dia, mas nunca percorridos após o anoitecer. Que algumas palavras podiam ser ditas em voz alta, mas outras deveriam permanecer guardadas. E, principalmente, que nem todo chamado deveria ser respondido.Mesmo se a voz soasse conhecida.Principalmente se soasse conhecida.Talvez essa tenha sido a sua primeira lição na floresta. Mesmo assim, aprendeu-a tarde demais.Às vezes, ainda se pegava pensando na voz de sua mãe. No entanto, sempre que o fazia, era acometido por uma ânsia mortificante que contaminava todas as suas recordações dela, porque já não conseguia visitá-las sem reviver o exato momento em que tudo havia mudado. Afinal, não havia se deixado enganar por uma imitação mal feita da qual pudesse desconfiar se prestasse atenção o suficiente: era, de fato, a voz dela, que conhecia desde sempre, e na qual sempre havia encontrado conforto. Mas não vinha dela.Ainda se lembrava do terror súbito e da dor lancinante que sentiu no instante em que se deparou com o Leshy ao invés de sua mãe. Era quase como se a tivesse perdido duas vezes.Odiava e temia o espírito por isso. Ao seu lado, estava sempre na expectativa do próximo truque, da próxima mudança de forma, da próxima mentira. Sabia que a criatura podia fazer a floresta enganá-lo. Podia esconder caminhos, levá-lo a andar em círculos, fazê-lo ver pessoas e ouvir vozes que não existiam. Havia momentos em que ele o assustava tanto que queria correr até não conseguir mais sentir as próprias pernas, embora soubesse que seria inútil.Mas havia também as outras vezes. As vezes em que o espírito não parecia interessado em assustá-lo, caçá-lo ou brincar consigo. Afinal, embora fosse difícil admitir, o Leshy não o tratava sempre com crueldade. Na verdade, havia ocasiões em que parecia até mesmo cuidar de si: dava-lhe comida quando percebia que estava com fome, mostrava-lhe onde se abrigar quando fazia frio, afastava-o de outros perigos da floresta, ensinava-o a tratar de seus próprios ferimentos quando se machucava, e, às vezes, mostrava-lhe como usar magia. Nesses momentos, a presença da criatura quase deixava de parecer uma ameaça, aproximando-se de uma constante familiar.Havia algo de profundamente contraditório e difícil de conciliar em encontrar, no mesmo ser que lhe provocava medo e repulsa, parte daquilo que o impedia de se sentir completamente perdido. Talvez por isso preferisse quando ele estava longe. Não precisava decidir o que sentia. Podia simplesmente existir e aproveitar as pequenas coisas que havia aprendido a apreciar na floresta.Naquela tarde, estava sentado junto a uma raiz grossa parcialmente coberta de musgo, com alguns pequenos ossos espalhados diante de si. Não sabia a que animal haviam pertencido. Talvez um coelho. Talvez alguma coisa menor. Havia os encontrado perto de um córrego há alguns dias, mas só naquele instante pôde se deter a examiná-los cautelosamente, girando-os entre os dedos enquanto se concentrava em remover com a unha os resquícios de terra que permaneciam aderidos às suas superfícies. Então uma voz soou:— Já não se cansou?Virou a cabeça. Havia um homem encostado em uma árvore a poucos metros de si. Era difícil dizer sua idade. Parecia ter idade demais para que o considerasse jovem, mas ainda conservava algo vigoroso em sua postura e seus traços. Seus cabelos eram escuros, embora fios grisalhos já começassem a se espalhar entre eles, e seu rosto era anguloso, marcado por linhas discretas que não chegavam a envelhecê-lo completamente. Havia alguma coisa familiar nele, no entanto tinha certeza de que não o conhecia de fato.Não sabia dizer onde ele havia surgido. Não o ouvira chegar, o que não era habitual. Depois de tanto tempo na floresta e das incontáveis lições aprendidas com os artifícios de seu carcereiro, havia desenvolvido uma atenção quase instintiva ao que acontecia ao seu redor, e notava pequenas mudanças quase sem esforço. Era assim que sobrevivia. Ainda assim, não havia percebido aquele homem.Observou-o com atenção. Não parecia haver nada particularmente ameaçador em sua postura, mas, normalmente, aquele seria o momento em que seu corpo decidiria antes de si. Aquele lugar o havia ensinado a desaparecer antes mesmo de descobrir se havia motivo para fazê-lo. Mas não dessa vez. Havia alguma coisa naquele desconhecido que tornava o impulso de fugir menos urgente. Não desaparecia. Apenas não vencia.Assim, continuou onde estava, e o estudou por mais alguns segundos, tentando entender o que havia de diferente.— De quê?A pergunta lhe escapou antes que pudesse contê-la. Sequer chegou a decidir falar:as palavras simplesmente saíram, rápidas e involuntárias, como se tivessem encontrado seus lábios antes que ele pudesse lembrar a si mesmo de que não deveria responder estranhos na floresta. O homem, por sua vez, deu de ombros, como se a pergunta não tivesse importância alguma.— Daqui — disse com a mesma naturalidade de quem comentava sobre o tempo ou constatasse algo óbvio. No entanto, não havia em seu tom qualquer pretensão, urgência ou mesmo expectativa de que o garoto concordasse consigo.Ele não parecia particularmente interessado em convencê-lo de nada. Continuava encostado na árvore, tranquilo, como se não houvesse nada de incomum naquela situação. Egor franziu a testa.— Eu moro aqui — retrucou com uma simplicidade quase defensiva, convicto de que aquela afirmação bastaria para encerrar qualquer discussão. Não havia nela orgulho ou desafio, no entanto. Era apenas um fato, tão evidente para si quanto seu próprio nome.Por alguns instantes, o homem apenas o observou em silêncio, parecendo analisá-lo.— Eu sei.A resposta veio sem julgamento. O estranho então desviou os olhos para a floresta, como se a examinasse, antes de voltar as íris verdes para si e acrescentar, dessa vez com uma austeridade quase desconcertante:— Mas isso não significa que precise ficar.Ele se desencostou da árvore, abandonando um pouco da casualidade de outrora. E, embora não tenha feito menção alguma de se aproximar, aquela pequena mudança bastou para que o garoto sentisse o próprio corpo se tensionar, preparando-se para reagir a qualquer instante. Ainda assim, permaneceu imóvel, e o homem adicionou, suavizando um pouco a voz, embora ainda soasse firme:— Você tem outros cantos para estar.A frase soou absurda, sobretudo pela certeza que carregava. Não compreendia como o homem poderia fazer aquele tipo de afirmação com tanta segurança. Não o conhecia. E, mesmo que o conhecesse, não era como se pudesse simplesmente partir.Um gosto amargo surgiu em sua boca. Odiava se lembrar disso. Apertou os dedos ao redor do pequeno osso, tentando conter a própria frustração. Subitamente, o desconhecido pareceu lembrar de algo.— Mas antes — ele tornou a falar antes que pudesse formular qualquer protesto, e seu olhar o percorreu de cima a baixo, demorando-se por alguns instantes em suas roupas —, vista isso do avesso.A ordem veio tão repentinamente que Egor sequer teve certeza de ter ouvido direito.— O quê?O homem não repetiu de imediato. Apenas continuou a observá-lo, como se esperasse que a instrução fizesse sentido por conta própria. Entretanto, após alguns instantes, pareceu se dar conta de que, apesar de tudo que o garoto havia vivido, talvez ainda houvesse coisas que ele simplesmente não sabia.— Suas roupas — disse, por fim — Do avesso.— Por quê?A pergunta saiu menos desconfiada do que pretendia. Ainda havia um fundo de dúvida em sua voz, no entanto sua hesitação vinha menos do receio de obedecer e mais da necessidade de saber se estava fazendo a coisa certa. Se não estava simplesmente trocando uma armadilha por outra.Dessa vez, o estranho não pareceu se incomodar com o questionamento, apenas considerá-la: havia algo na forma que seu silêncio se estendia que dava a impressão de que ele compreendia o que havia por trás daquela indagação, e que estava ponderando não apenas o que dizer, mas o quanto dizer.Poderia explicar. Mas talvez fosse informação demais. Então se limitou a responder:— Porque ele está procurando você.Um arrepio percorreu a espinha do garoto. Não precisou perguntar a quem ele se referia, mas não entendia como ele poderia saber. Tampouco conseguiu esconder a perturbação que aquela resposta havia provocado em si.Por um instante, reconsiderou tudo o que havia pensado nos últimos minutos. A sensação de que aquele homem não representava uma ameaça, a impressão de que havia alguma coisa familiar nele. Talvez houvesse sido apenas descuido.Contudo, olhando para ele, ainda não conseguia encontrar nada que sustentasse sua desconfiança, o que era quase pior. Estava acostumado a reconhecer o perigo. No entanto, naquele momento, não sabia exatamente do quê estava diante, e isso o perturbava.Mas talvez isso sequer importasse.Olhou para a floresta, resignado. Já conhecia o desfecho daquela história e sabia que ele não mudaria, ainda que optasse por acreditar naquele desconhecido. E, se a tentativa estava fadada ao fracasso de qualquer maneira, não fazia diferença a intenção por trás daquela instrução, tampouco o que o homem sabia ou deixava de saber. Não precisava ocupar sua cabeça com mais aquelas preocupações.— Ele sempre me encontra — murmurou, dando de ombros, como se dispensasse sua sugestão.O homem não pareceu se abalar. Pelo contrário. Um pequeno sorriso surgiu lentamente em seus lábios. Não era exatamente um sorriso gentil. Havia nele uma segurança compenetrada e um quê de divertimento que beiravam o inquietante. Não parecia a expressão de alguém que estava tentando convencê-lo de alguma coisa ou tranquilizá-lo, mas de quem sabia exatamente o que estava fazendo.— Não assim.

Подкидыш, the foundling

Na primeira vez em que ele a viu, Nadezhda estava colhendo milefólio em uma clareira. A tarde se despedia, e a floresta começava a perder suas cores sob a sombra do crepúsculo, mas ela parecia indiferente à chegada da noite, inteiramente concentrada no que fazia. Trazia consigo um cesto de vime já parcialmente preenchido com outras ervas, e uma pequena faca de lâmina gasta, que utilizava para cortar os pecíolos sem danificar as plantas enquanto cantarolava uma melodia que se misturava perfeitamente aos sons da floresta.Três semanas antes, Nadezhda havia derretido um pouco de cera para sua prática habitual de adivinhação, esperando presságios sobre questões cotidianas que ocupavam sua mente. Contudo, naquela noite, não obteve respostas para nenhuma de suas perguntas.A princípio, ela não soube dizer o que estava vendo, mas logo pôde identificar duas linhas compridas e irregulares atravessando a massa endurecida de cera que ocupava o centro da tigela com água fria até se tornarem uma só. Um encontro. Intrigada, a mulher inclinou a tigela, procurando algo mais entre as formas. E então percebeu uma terceira figura próximo ao ponto onde os dois caminhos se encontravam, menor e mais espessa, como se houvesse de formado por último: uma serpente.Ela sentiu um calafrio. Nadezhda sabia exatamente a quem aquele animal costumava estar relacionado, e o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi tão desagradável que tentou afastá-lo imediatamente: talvez aquele encontro fosse o seu próprio com a morte.No entanto, uma serpente poderia significar muitas coisas. Ela tornou a inclinar a tigela, procurando algum detalhe que confirmasse ou desfizesse sua impressão. Não encontrou nenhum: apenas a pequena forma enrolada entre os dois caminhos, suficientemente parecida com uma serpente para inquietá-la, mas ambígua demais para ser tomada como um presságio definitivo. Por fim, lembrou a si mesma de que, às vezes, cera era apenas cera, e cobriu a tigela com um pano.Depois disso, Nadezhda tentou seguir com sua rotina. Lavou a tigela, guardou a vela, voltou às ervas que havia deixado secando junto à janela e passou o restante da noite ocupada com as tarefas de sempre. Nos dias seguintes, continuou atendendo os hóspedes, preparando infusões, colhendo plantas e cuidando da casa como fazia todas as outras manhãs. Não voltou a fazer a leitura. Ainda assim, não conseguiu esquecê-la. E, ainda que não soubesse ao certo o que ela anunciava, tinha a sensação persistente de que, em algum ponto adiante, seu caminho seria cruzado por algo que não pertencia inteiramente ao mundo dos vivos.Sua incerteza perdurou por semanas, como algo que espreitava no fundo de sua mente, raramente alcançando seus pensamentos, mas nunca desaparecendo por completo, ainda sem uma resposta definitiva. Até aquela tarde.Ao passo que a noite caía, o canto dos pássaros diminuía aos poucos, dando lugar ao cricrilar dos insetos, ao farfalhar das folhas e aos chamados distantes de animais que começavam a se mover entre as árvores. Os sons se sobrepunham uns aos outros, tornando-se cada vez mais numerosos à medida que a luz desaparecia. Então, por um breve instante, tudo cessou. O silêncio foi tão repentino e absoluto que Nadezhda parou com a faca ainda entre os dedos, deixando o cantarolar morrer em seus lábios assim como os sons da floresta haviam desaparecido ao seu redor.Não ousou se mover, mas soube, naquele momento, que não estava sozinha. Permaneceu imóvel por alguns instantes, esperando. Então, pouco a pouco, a floresta voltou à sua sinfonia habitual, e nada extraordinário aconteceu de imediato. Ainda assim, um arrepio desceu por sua coluna, acompanhado por uma sensação inquietante de reconhecimento. Seus dedos apertaram o cabo da faca, e ela respirou fundo. Aquele era o momento da sua leitura.Nadezhda finalmente reuniu coragem para erguer a cabeça. A clareira estava vazia, e, por mais que estivesse atenta, não via nada além das árvores mergulhadas no crepúsculo. Mas sentia, inquestionavelmente, o peso de olhos vigilantes sobre si. Não sabia de onde vinham, mas sabia que algo a observava com uma atenção quase predatória.Contraintuitivamente, decidiu não continuar procurando, e retornou sua atenção às ervas que colhia. Talvez porque, no fundo, sabia que, uma vez que um destino é traçado, só se pode mudar os caminhos de chegar até ele. Talvez porque simplesmente havia algo de profundamente insensato em demonstrar medo diante de uma presença que ainda não havia decidido fazê-la de presa.Um minuto se passou. Então outro. E nada ocorria. Caso se concentrasse o bastante, ela percebeu ser capaz de ouvir uma respiração calma e controlada, que se misturava perfeitamente aos demais sons da floresta. Um pequeno sorriso se desenhou em seu rosto. Ao menos, o que quer que fosse, respirava.— Você sabe que ficar me observando desse jeito é um pouco indelicado, não sabe? — perguntou quase casualmente, como se seu coração não estivesse batendo com força suficiente para denunciar o medo que se esforçava para esconder.Aquela certamente não era uma situação na qual uma pessoa sensata deveria estar conversando tranquilamente com algo escondido na floresta ao anoitecer. Mas havia algo quase reconfortante em tentar transformar aquilo numa conversa: enquanto ela falasse, ainda podia fingir que havia alguém ali. Alguém, e não alguma coisa.Naturalmente, não houve resposta. Mas ela seguiu falando, como se desse de ombros:— Quer dizer, eu não me importo particularmente. Só estou dizendo.Continuou cortando o milefólio. Seus movimentos permaneciam lentos e cuidadosos, como se nada houvesse mudado, mas haviam perdido a naturalidade de antes. Ainda sentia aquela presença, afinal, e estava certa de que havia alguma coisa entre as árvores, em algum lugar além da margem da clareira, acompanhando cada movimento seu com uma atenção calculada. E quanto mais tempo passava, mais difícil se tornava fingir que aquilo não a incomodava.— Você é bom nisso — disse, por fim, tentando manter a voz tranquila e firme, embora sentisse a própria tensão começando a se acumular nos ombros. — Em se esconder, quero dizer.Nadezhda esperou. Nada. A inquietação cresceu dentro dela, lenta e persistente. Não escutava nada que pudesse denunciar a localização do que a observava, mas tinha a impressão de que ele a rodeava, como um animal.— Se pretende continuar me olhando — continuou, dessa vez quase como se falasse consigo mesma —, ao menos poderia ajudar. E se pretende me matar, poderia me poupar de todo esse trabalho.Dessa vez, pôde ouvir algo. Um estalo seco, abafado logo em seguida pelo farfalhar das folhas. A mulher ergueu os olhos de forma discreta, e teve a impressão de saber de onde o som teria vindo. À direita. Então, blefou:— Eu consigo vê-lo.— Tem certeza?A resposta veio tão depressa que Nadezhda levou uma fração de segundos para compreender que, havia, de fato, obtido alguma. Então, sentiu um certo alívio ao constatar que a voz era, indubitavelmente, humana. Rouca, baixa, quase áspera pelo desuso, como se aquele que falava não estivesse acostumado a fazê-lo, mas humana.No entanto, o conforto momentâneo de ouvir uma voz humana foi quase imediatamente substituído por uma nova inquietação, quando percebeu que o som não viera da direção em que imaginara estar sendo observada, mas do lado oposto da clareira. Ela se virou num sobressalto.Seu olhar percorreu as árvores à esquerda, procurando por qualquer sinal de movimento. Não havia nada. Apenas os troncos escuros, as sombras alongadas pelo anoitecer e o mato balançando muito devagar sob o vento. Então percebeu que estava prendendo a respiração. Soltou o ar.— Não — admitiu, resignada, depois de alguns segundos — Eu estava blefando.Em outra parte da clareira, a voz respondeu:— Eu sei.Nadezhda franziu a testa. Havia algo quase ofensivamente tranquilo naquela resposta. Seu olhar buscou, novamente, a origem da voz, enquanto questionava, entre a curiosidade e a indignação:— Então por que perguntou?Dessa vez, a réplica demorou. Mas ainda veio.— Queria saber se você mentia.Nadezhda permaneceu em silêncio. Por alguns instantes, não soube ao certo o que fazer com aquela afirmação. A faca ainda estava em sua mão. Estava em perigo? Tudo em seu corpo dizia que sim. Afinal, havia alguma coisa escondida na floresta, observando-a há sabe-se lá quanto tempo, movendo-se sem que ela conseguisse acompanhá-la com os olhos. Aquilo deveria bastar. Mas havia alguma coisa por baixo da aspereza da voz que não combinava com a ameaça que a mulher havia imaginado encontrar escondida na floresta. Hesitação, talvez, ou curiosidade. E algo estranhamente jovem, embora, ao mesmo tempo, difícil de situar.Talvez ainda estivesse decidindo. A ideia lhe ocorreu com uma pontada de desconforto. No entanto, se aquela presença realmente quisesse atacá-la, não teria tido oportunidades o suficiente? E por que conversaria consigo? Aquilo a deixou ainda mais incerta. Talvez estivesse falando com alguém muito mais novo do que esperava. Ou talvez estivesse apenas procurando humanidade onde não havia nenhuma.O silêncio se prolongou por mais alguns segundos, e ela considerou deixar o assunto se encerrar naquele ponto. Talvez fosse melhor. Talvez já tivesse falado demais. Mas, por alguma razão, não conseguiu.— Eu minto, às vezes — a frase saiu quase como uma confissão casual — Quando necessário. E você? Mente?A voz tardou a voltar a emergir por entre os sons da floresta, e ela mexeu discretamente em sua cesta de vime, fingindo não estar esperando que seu interlocutor a respondesse.— Às vezes — admitiu, por fim, do mesmo lugar de outrora.Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.— Bem, isso é reconfortante.Houve uma pausa, e então uma pergunta genuinamente permeada de curiosidade:— Por quê?Nadezhda quase se sentiu vitoriosa.— Porque seria bastante inconveniente descobrir que estou conversando com a única criatura honesta desta floresta.A resposta pareceu pairar entre as árvores por um instante, até que uma gargalhada rompeu o silêncio, ecoando entre os troncos antes de se dissipar pela clareira. Havia algo quase juvenil naquela risada, uma espontaneidade que não combinava com a presença silenciosa e inquietante que a observara até então. Ela permaneceu imóvel, surpresa demais para reagir. Então, sem conseguir evitar, acompanhou-o brevemente no riso.E foi nesse momento que notou um par de olhos entre as árvores. Azuis. Um azul pálido, quase acinzentado sob a luz moribunda do fim do dia. Prendeu a respiração, atônita por finalmente encontrá-lo. Notando que ele estava em um lugar completamente diferente de onde sua voz parecia vir, a primeira coisa que lhe ocorreu é que, assim que piscasse, o perderia de vista. Mas os olhos continuaram exatamente no mesmo canto. No entanto, as íris já não eram mais azuis.O tom desbotado de outrora havia dado lugar a um amarelo intenso que lembrava os olhos de um animal refletindo a luz no escuro. Mas a cor não era a parte mais animalesca daquele olhar: havia nele uma espécie de vigilância silenciosa, instintiva e desconcertante, que parecia desconhecer a distância civilizada entre reparar e espreitar.De fato, ele a observava minuciosamente, seguindo cada um de seus movimentos com uma precisão que não parecia inteiramente humana, embora também não parecesse hostil. Era, todavia, suficientemente perturbadora para fazer com que se tornasse extremamente consciente acerca de seus próprios movimentos.Tentou não demonstrar, mas imaginava que não estava fazendo um bom trabalho. E então percebeu que as íris alheias começaram a mudar novamente. O amarelo se desfez pouco a pouco, dando lugar a um verde profundo, escuro e úmido, da mesma cor do musgo que crescia nas raízes das árvores. Ela franziu ligeiramente a testa, mas decidiu não perguntar. Em vez disso, respirou fundo e tentou evitar que o tom descontraído da conversa se perdesse sob seu nervosismo, mantendo um pequeno sorriso em seus lábios após a risada de ambos se dissipar:— Bom saber que você sabe rir.Ele tornou a achar graça, deixando escapar algo mais próximo de um sopro de divertimento do que propriamente uma gargalhada. Ainda assim, era suficiente para fazê-la sorrir um pouco mais. E então, de repente, os olhos desapareceram. Nadezhda piscou. Uma vez. Duas. Nada. Ela sentiu uma pontada inesperada de desapontamento. Mas antes que pudesse protestar ou comentar algo, ouviu alguns galhos secos se partirem.Então, uma silhueta surgiu entre as árvores. Não de repente. Primeiro, apenas uma sombra mais escura se desprendendo das outras. Depois, o contorno de um ombro, o movimento de uma cabeça, a linha estreita de um braço. Ele avançou um passo, devagar, como se ainda estivesse decidindo se queria realmente deixar que ela o visse. E então prosseguiu, sem movimentos bruscos, como se buscasse lhe dar tempo e espaço para recuar caso quisesse. Nadezhda permaneceu exatamente onde estava.A luz fraca do entardecer enfim alcançou seu rosto. Era um rapaz. Ou, pelo menos, tinha a aparência de um.Jovem demais para aquele olhar. Devia ter por volta de onze ou doze anos, talvez. Era difícil dizer com precisão. Mas era alto para a sua idade, e a magreza acentuada fazia com que parecesse ainda mais comprido. Tinha o rosto sujo de terra, com escoriações diversas, e feições surpreendentemente austeras. Não a seriedade passageira de uma criança contrariada, mas uma espécie de severidade quieta, endurecida por algo que a mulher não saberia nomear.Os cabelos escuros e longos estavam revoltos, emaranhados pelo vento e pela mata. As roupas, gastas pelo tempo e pela floresta, pareciam pequenas, e estavam rasgadas em diversos pontos, com as barras desfiadas e impregnadas de lama. E estavam do avesso. Tudo. Cada peça vestida com as costuras e o lado interno expostos, de uma forma que parecia mais deliberada do que motivada por um engano.Inicialmente, Nadezhda não soube muito bem como reagir. Não queria assustá-lo. E, apesar do garoto não parecer intimidado, havia alguma coisa em sua postura que a fazia sentir que qualquer gesto precipitado poderia desfazer aquele momento, e levá-lo a desaparecer novamente entre as árvores. Percebeu, então, que ele estava tão pouco acostumado a ser visto quanto ela estava a vê-lo, e que ele tinha um ar selvagem que não parecia ser apenas consequência das roupas rasgadas, dos cabelos emaranhados ou da sujeira que cobria sua pele. Era algo mais profundo, como se, para ele, não houvesse uma diferença clara entre estar dentro da floresta e pertencer a ela.Enquanto ele se aproximava, percebia que cada passo dado parecia intrinsecamente calculado. Ele evitava os galhos secos que poderiam estalar sob seus pés e contornava as raízes expostas sem sequer precisar olhar para elas, como se conhecesse cada irregularidade daquele terreno. Havia algo inquietante naquela precisão natural, sobretudo porque a levava a crer que todos os sons provocados por si outrora haviam sido deliberados para anunciar a própria presença, e que ele poderia ter permanecido completamente oculto, se assim quisesse.Apesar dessa constatação perturbadora, evitava se mostrar assustada, principalmente porque, enquanto a distância entre os dois diminuía vagarosamente, o rapaz mantinha os olhos nela. Não sempre, é claro. De tempos em tempos, seu olhar desviava para os arredores, percorrendo as árvores, os arbustos e a clareira. Mas, logo em seguida, retornava para si, detendo-se em suas mãos, na pequena lâmina que carregava e na cesta de ervas, para só então retornar para seu rosto.Sob seu olhar, Nadezhda tinha a desconfortável impressão de que estava sendo cuidadosamente desmontada, peça por peça, mas, ao passo que o observava de volta, conseguia imaginar, ainda que apenas vagamente, de onde vinha tamanha cautela, o que gradualmente substituía o desconforto por algo próximo de compreensão. Talvez ele simplesmente não soubesse fazer diferente.

Devagar, afrouxou os dedos em torno do cabo que segurava com firmeza e deixou a faca cair sobre a terra úmida. O pequeno ruído metálico pareceu alto demais na quietude da clareira. Ela não se abaixou para pegá-la. Em vez disso, manteve as mãos visíveis, vazias, ao lado do corpo. Os olhos do garoto acompanharam o movimento até a faca e permaneceram nela por alguns segundos. Depois voltaram para suas mãos e, por fim, para sua face. Nadezhda sustentou seu olhar e perguntou, em um tom conciliador:— Melhor?O garoto não respondeu. Mas, pela primeira vez, ela teve impressão de que alguma coisa em sua postura havia relaxado, e decidiu que isso era uma resposta boa o suficiente.— O que você está fazendo por aqui? — perguntou.Ele a encarou. Agora que podia ver seus olhos de perto, Nadezhda percebeu que o verde profundo não era exatamente estável. Sob a luz remanescente, parecia haver pequenas mudanças na tonalidade, difíceis de acompanhar.— Andando.A resposta veio de forma simples, quase imediata, como se fosse óbvia. Nadezhda ergueu levemente as sobrancelhas.— Andando?Ele assentiu, como se não houvesse nada de estranho na resposta. Ela olhou ao redor, para a clareira onde estavam, para a mata fechada que se estendia em todas as direções, e para o exato lugar de onde ele havia saído. Não parecia exatamente o tipo de lugar onde alguém simplesmente acabaria por acaso. Voltou a encará-lo.— Até aqui? — voltou a questionar, em um tom que misturava curiosidade com certa incredulidade — E de onde você veio?O garoto permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando para ela como se tentasse decidir o quanto deveria responder. Depois, sem desviar os olhos, apontou vagamente para as árvores atrás de si.— Da floresta.Nadezhda o observou por um instante, sem saber se ele estava sendo evasivo ou se aquela era, genuinamente, a resposta mais precisa que conseguia lhe dar.— Sim, eu percebi essa parte.Ele estreitou os olhos, como se, nesse caso, não entendesse o motivo da pergunta. Ela, por sua vez, suspirou baixinho, então tornou a reparar nas roupas do avesso. Não era a primeira vez que ouvia falar de algo assim. Talvez, pensou, estivesse começando a entender um pouco melhor com quem estava falando. Voltou a encará-lo.— Qual é o seu nome?A mudança em sua expressão foi pequena. Tão pequena que, se não estivesse prestando tanta atenção, talvez nem a percebesse. Mas percebeu. As pupilas se dilataram, os ombros ficaram mais tensos, e todo o corpo pareceu adquirir outra espécie de quietude. Não era exatamente medo, mas era como uma antecipação de perigo.Nadezhda não insistiu. Ao invés disso, assentiu, demonstrando compreender sua hesitação. Sabia que nomes eram mais importantes do que a maioria das pessoas costumava imaginar. Havia coisas que podiam ser ditas sem consequência alguma, e havia outras que, uma vez entregues a alguém, jamais poderiam ser recolhidas da mesma maneira. E, às vezes, sobreviver dependia simplesmente de saber o que não dizer.— Tudo bem, não precisa me dizer — assegurou, calmamente. A facilidade com a qual aceitou a ausência de resposta pareceu surpreendê-lo. Ela então inclinou ligeiramente a cabeça, como se acabasse de se lembrar de algo, e acrescentou: — Eu provavelmente também não responderia, no seu lugar.A tensão não desapareceu completamente, mas alguma coisa pareceu mudar. Talvez porque ela não havia insistido. Talvez porque ela havia demonstrado entendê-lo. Nadezhda guardou a informação: ele não queria lhe dar o nome. E, considerando tudo o mais, começava a suspeitar que talvez houvesse uma boa razão para isso. Não sabia exatamente o que teria acontecido com o garoto, mas ela reconhecia a cautela de quem aprendera, em algum momento, que certas coisas aparentemente inofensivas podiam ter consequências.Nadezhda percebeu isso e desviou o olhar primeiro, fingindo voltar a atenção para a cesta de ervas.— Eu sou Nadezhda, de qualquer forma — disse casualmente, fingindo voltar a atenção para a cesta de ervas, como se essa aparente descontração pudesse ajudar a reduzir o peso daquele momento — Você pode me chamar de Nadya, se quiser.Ele não esboçou qualquer reação de imediato. Ainda assim, quando Nadezhda voltou a olhar para ele, percebeu que havia uma diferença. Pequena, mas evidente: ele parecia um pouco menos preparado para desaparecer. Ela decidiu não comentar.Em vez disso, começou a separar as hastes de milefólio que havia colhido, retirando algumas folhas amassadas e separando-as das demais. E, enquanto o fazia, percebeu que ele se aproximava com cuidado. Permaneceu exatamente onde estava, concentrada em sua tarefa, deixando que o garoto determinasse a proximidade entre os dois, sem interferir em sua escolha.Quando ele finalmente parou, ergueu o olhar, encontrando-o perto o bastante para que pudesse observar melhor o que ela fazia, embora ainda preservasse uma certa distância, como se ainda decidisse se deveria confiar nela. Nadezhda achou perfeitamente justo. Continuou separando as folhas, deixando que ele se acostumasse à sua presença no próprio ritmo. Percebeu que seus olhos acompanhavam cada movimento de suas mãos, demorando-se especialmente nas ervas que ela organizava na cesta. A mulher fingiu não notar o interesse, até ouvi-lo perguntar:— O que você está fazendo?— Colhendo ervas — murmurou, mostrando um punhado de folhas — Milefólio.— Por quê? — ele voltou a questionar, soando genuinamente curioso.— Para uso medicinal. E talvez um ritual.A resposta pareceu despertar algo nele. Não foi uma reação muito evidente. Apenas uma pequena mudança no olhar, quase imperceptível, mas suficiente para que Nadezhda notasse. A atenção que antes estava concentrada nas folhas pareceu se voltar inteiramente para ela quando ele inquiriu:— Que tipo de ritual?Nadezhda inclinou ligeiramente a cabeça. Havia algo intrigante no tom utilizado na pergunta. Não parecia a curiosidade de quem ouvia falar de um ritual pela primeira vez. Em vez disso, sua atenção havia se tornado mais aguda, como se, de repente, houvesse encontrado um assunto que lhe era familiar. Supôs que isso explicaria porque o rapaznão havia soado surpreso com a ideia de um ritual.— Um ritual de adivinhação — respondeu, depois de uma breve pausa para ponderar o que deveria compartilhar. Inevitavelmente, pensou na sua última leitura de cera — Quero saber se alguém está tentando atravessar.O garoto pareceu estudar o conteúdo da cesta.— Isso não vai bastar — disse, por fim. Nadezhda franziu o cenho, mas antes que ela pudesse questioná-lo, ele acrescentou: — Você precisa de mais uma erva.— Qual?A pergunta escapou com mais rapidez do que pretendia. Havia algo curioso na afirmação alheia. Não era uma sugestão, mas uma constatação. Ele simplesmente havia decidido, ao olhar para as ervas que carregava, que faltava alguma coisa. Nadezhda voltou os olhos para a cesta, como se pudesse encontrar, por si só, a resposta. Milefólio, tomilho, erva-de-são-joão, e outras plantas que havia recolhido ao longo da tarde. Tinha tudo o que precisava para o ritual. Ou, pelo menos, tudo o que julgava precisar. Ergueu novamente os olhos para o garoto.— Algo que cresça perto da água — ele murmurou, pensativo, como se vasculhasse a própria memória — Junco.Nadezhda o encarou em silêncio por alguns instantes. Ela conhecia a planta. E, justamente por conhecer, sabia que a resposta do rapaz era específica demais para ser um mero palpite.— E por que eu precisaria dele?Não perguntou porque desconhecia a resposta. Sabia da simbologia do junco como uma barreira física entre o mundo dos vivos e dos mortos. Mas queria descobrir o que ele sabia e, sobretudo, de onde vinha aquele conhecimento. Por isso, deliberadamente, deixou a curiosidade transparecer na voz, pressionando-o um pouco mais do que havia feito até então.O garoto deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia demais para justificar uma explicação:— Ajuda a encontrar o caminho.Não era o que esperava ouvir. Havia imaginado que ele mencionaria alguma propriedade da planta que houvesse aprendido em algum lugar, ou talvez uma associação mais simples. Mas aquilo era diferente. Não era uma resposta que alguém daria por acaso. Havia, naquela justificativa, uma compreensão diferente: não falava do junco como proteção, nem como barreira, nem de qualquer um dos atributos que ela própria conhecia.Falava de um caminho, que, dentro daquele contexto, só podia ser um.Ela estreitou ligeiramente os olhos, observando o garoto com uma atenção renovada. E, ainda que já imaginasse o que ele responderia, questionou:— O caminho para onde?Ele pareceu estranhar a pergunta.— Para o outro lado.A resposta foi tão simples que quase soou como uma correção. Não havia hesitação em sua voz, tampouco a incerteza comum de quem se limita a repetir algo que ouviu de outra pessoa. Havia, ao contrário, uma espécie de familiaridade, como se aquilo a que se referia não fosse uma ideia abstrata ou uma metáfora para si, mas um lugar tangível, que conhecia suficientemente bem.Nadezhda sentiu um calafrio. O outro lado. Não precisava perguntar a que ele se referia.Seu olhar se deteve no rapaz. Dessa vez, porém, não o observou apenas como vinha fazendo desde que o encontrara. Não procurou a ameaça em sua postura, nem tentou decifrar seus movimentos, nem se perguntou de onde havia surgido ou o que poderia querer dela. Apenas olhou. De verdade. E, de repente, entendeu. Não tudo. Mas o suficiente.Durante semanas, havia presumido que a cera a alertava sobre um encontro com a morte. Tinha esperado, talvez, um espírito. Uma passagem. Talvez a sua, talvez a de alguém que conhecia. Mas não havia esperado um garoto.E, ainda assim, não estivera errada. Não sabia seu nome. Não sabia de onde vinha. Não sabia porque seus caminhos haviam se cruzado. Mas sabia o suficiente. O garoto não era a morte que havia esperado, mas era algo muito mais próximo dela.A ideia ainda lhe parecia estranha quando a encarou de frente. Não porque duvidasse dela, mas porque, agora que a considerava, parecia explicar coisas demais. Desviou os olhos para a cesta. O milefólio. O junco. A cera. Talvez não precisasse de mais nada.— Acho que não vou mais precisar fazer o ritual.O rapaz franziu ligeiramente a testa.— Por quê?Havia interesse genuíno na pergunta. Não parecia compreender o que ela havia acabado de perceber. Ela sorriu de leve.— Porque acho que já encontrei minhas respostas.Ele permaneceu olhando para ela por alguns segundos, como se tentasse descobrir o que exatamente havia mudado. Até que resolveu ceder à própria curiosidade e perguntar:— Quais?Ela quase riu.— Você é curioso.Ele ignorou o comentário, como se não visse nada de errado nisso, e dessa vez ela não conseguiu conter a risada. Então, depois de recuperar a compostura, abaixou a voz, perguntando quase como quem compartilha um segredo:— Você está com fome?Após ponderar por alguns instantes, o rapaz se limitou a balançar a cabeça, negando. Nadezhda assentiu. Não porque acreditasse nele, mas porque entendia que não chegaria a lugar algum insistindo. Ao invés disso, assumiu outra estratégia.— Bom, eu estou — confessou enquanto ensaiava para se levantar, como se buscasse prepará-lo — E tenho comida em casa. Fica perto daqui. Você já deve ter visto, eu suponho.O rapaz permaneceu em silêncio. Tinha visto, realmente. Dias antes. Era um lugar estranho escondido entre as árvores, cujos limites eram difíceis de perceber para quem não soubesse onde procurar. Havia proteções antigas ao redor da casa, de modo que se limitou a observar de longe. E, enquanto o fazia, tinha visto pessoas entrando e saindo. E tinha visto Nadezhda.Ela terminou de se levantar e ajeitou a cesta junto ao corpo. Quando voltou os olhos para ele, agora de pé, percebeu o quão novo ele realmente era. Sentiu uma pontada de pena. Não por vê-lo em uma posição de inferioridade, mas por perceber que, por trás de todo aquele mistério, havia apenas uma criança que parecia ter passado tempo demais aprendendo a se virar sozinha.Seu olhar suavizou.— Pode me acompanhar, se quiser.Sem esperar por uma resposta, começou a andar devagar, criando uma distância confortável para que ele pudesse ponderar sobre o seu convite sem se sentir pressionado. E então, após alguns passos, continuou falando, ignorando por completo o peso do silêncio.— Também pode ficar na floresta, se preferir — acrescentou, lançando-lhe um olhar por cima do ombro. Fez uma pequena pausa antes de prosseguir, como se quisesse se certificar de que ele a entendia — Mas se estiver com frio, há uma lareira. Se estiver com fome, há comida. E se estiver machucado, eu posso dar uma olhada.Ainda que ele não houvesse se mexido, a mulher percebia uma mudança sutil em sua postura e na forma que ele a olhava. Certamente não parecia convencido, mas aparentava, ao menos, considerar seu convite, e isso era bom o suficiente para Nadezhda.Não precisava que ele dissesse sim. Só precisava que não parecesse mais tão decidido a dizer não.— Você não precisa me dizer seu nome — prosseguiu cautelosamente. Não pretendia transformar sua oferta em uma espécie de súplica, mas sentia que ele precisava ser assegurado de que não pediria nada em troca caso decidisse ir consigo. Isso pareceu atrair sua atenção — Também não precisa me dizer onde esteve, nem do que está fugindo. E você definitivamente não precisa entrar — interrompeu a própria fala para dar um pequeno sorriso brando, quase cúmplice —, mas você pode.Sem mais esclarecimentos a fazer, voltou a atenção para o caminho diante de si e retomou sua caminhada com a mesma calma de antes. Não tornou a olhar para trás. Se ele optasse por acompanhá-la, não precisaria de mais insistência. Bastava saber que a porta estaria aberta, ainda que precisasse de tempo para decidir. E, caso escolhesse ficar, respeitaria sua decisão, mesmo que, em seu âmago, torcesse para ouvir passos atrás de si.Por alguns instantes, o garoto permaneceu exatamente onde estava. Ainda a enxergava perfeitamente, por mais que se distanciasse. Pensou que poderia dar meia volta e esquecer aquele encontro. A floresta era familiar. A mulher não. A casa menos ainda. E sabia, talvez melhor do que a maioria, que coisas desconhecidas poderiam ser perigosas. Mas algo dentro de si não parecia em paz com essa decisão.Ele ponderou. Lembrou-se do homem da floresta e olhou para as próprias roupas, ainda do avesso. Então pensou na forma como a mulher havia falado consigo, sem tentar se aproximar mais do que ele permitia, e na estranha gentileza que trazia em seu olhar. Talvez possuísse, de fato, outros lugares para estar.Assim, deu o primeiro passo. Depois, outro, menos calculado. E, alguns metros à frente, Nadezhda se permitiu sorrir.